terça-feira, 10 de julho de 2012

As feministas é que são chatas

Por Aline Valek, no http://www.alinevalek.com.br
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Alguns acham que fãs de futebol são chatos. Outros insistem que chatos são os evangélicos. Outros discordam, acham que chatos são os gays. É particularmente difícil determinar a chatice que define um grupo de pessoas, mas parece haver um consenso sobre as feministas: elas é que são chatas.

É claro que existe um universo de chatice explorado diariamente, mas a chatice das feministas é de uma proporção tão gigantesca que a chatice de pessoas desagradáveis como as que assoviam para você na rua acabam passando em branco.
Tem gente que diz que mulher não pode sair de roupa curta. Tem que se valorizar. Mas sair sem maquiagem não pode, tem que ser feminina. Outros dizem que tem que alisar o cabelo, porque cabelo crespo ou indomável não pode ser bonito. São pessoas que vão olhar para alguém que não se encaixa no padrão e dizer “ih, você precisa se cuidar”. Mas as feministas é que são chatas.

Tem gente que conseguiu determinar o que é uma “mulher de verdade”, em uma listinha cheia de detalhes complicados, como: não pode ser magra demais, mas também não pode ser gostosona, porque isso é vulgar; não pode gostar de beber, nem querer se divertir; tem que ser pra casar, para cuidar do marido quando ele precisar. Se não se encaixar na listinha com outros quinhentos e oitenta e três itens, só pode ser puta. Essas pessoas também dizem que mulher não pode falar palavrão e nem gostar de sexo como os homens. Mas as feministas é que são chatas.

Tem gente que diz que, se uma mulher não quer transar com um cara que foi legal com ela, ela é uma vaca por deixá-lo na friendzone. Mas tem gente que também diz que se a mulher transa com quem quer, quando quer, ela é uma vadia. Há quem diga que o sexo desvaloriza a mulher, então ela precisa se “guardar”. Essas pessoas devem achar que buceta se desgasta com o uso. Mas as feministas é que são chatas.

Tem gente que diz que homem não serve pra cozinhar. Que é um completo retardado que não é capaz de fazer sozinho a mais simples das tarefas domésticas sem fazer algo errado ou sem chamar a mulher para ajudar, afinal, ela é que foi feita pra isso. Essas pessoas também dizem que homem é uma criatura rasa e descontrolada que vai querer enfiar o peru em qualquer mulher que vê pela frente. Tem gente que diz que homem com sensibilidade não pode, porque é “gay”. E ainda tem gente que diz que é o homem quem tem que pagar a conta. Mas as feministas é que são chatas.
Tem gente que adora quando as mulheres tiram fotos de lingerie e publicam na internet, desde que não sejam gordas, velhas, feias, ou que usem lingerie bege. Tirar a roupa para protestar também não pode. Porque há quem diga que as mulheres até podem lutar por seus direitos, mas não podem “lutar demais”. Essas pessoas é que definem quem pode ficar nua, aonde, por qual motivo e para quem elas devem se mostrar. Mas as feministas é que são chatas.

Querem cagar regra sobre o que a mulher pode ou não fazer com seu próprio corpo. Mas as feministas é que são chatas.
Feministas são chatas porque falam de assuntos que ninguém quer ouvir (porque, quem sabe, se não falassem tanto de estupro, ele magicamente deixaria de existir). Feministas (e estamos falando de homens e mulheres) são as malas sem alça que desconstroem as mensagens da mídia e questionam tudo. Tudo porque acreditam na ideia radical que mulheres são seres humanos.

É, as feministas são chatas. E eu, que escrevi isso, devo ser também.

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Ciência preconceituosa



Psicóloga inglesa afirma que interpretações forçadas de pesquisas nos fazem pensar que diferenças entre homens e mulheres são explicadas pelo cérebro
Por Tiago Cordeiro (Revista Galileu)



Existem questões fisiológicas e cerebrais que determinam os comportamentos diferentes entre homens e mulheres, como o fato de que eles dirigem melhor e entendem matemática com facilidade e elas são ótimas na comunicação e em relacionamentos interpessoais. Certo? Errado, muito errado. Para a psicóloga inglesa Cordelia Fine, essa noção, que ocupa espaço nos jornais e páginas de livros muito populares sobre comportamento humano, vem de uma interpretação rasa de pesquisas, muitas vezes, malfeitas. Em seu terceiro e mais recente livro, Delusions of Gender (Ilusões de Gênero, sem edição no Brasil), a pesquisadora, que tem Ph.D. pela Universidade College London, defende que a ciência é a grande culpada pela disseminação dessas noções sexistas e desmitifica estudos importantes feitos nessa área. O sexo de quem conduz cada estudo, segundo ela, pode determinar ou enviesar o resultado da pesquisa. Cordelia, que já participou desse tipo de experimento, fala sobre o papel sexista da ciência nesta entrevista exclusiva.

*Como a ciência ajudou a reforçar estereótipos a respeito de homens e mulheres?
Cordelia Fine: No século 19, os médicos da Inglaterra vitoriana pensavam que o cérebro menor e mais leve das mulheres explicava sua suposta inferioridade intelectual. Atualmente, uma ideia muito difundida é que o cérebro masculino é mais especializado que o feminino, e por isso os homens tenderiam a usar um lado para processar a linguagem e o outro para lidar com as informações espaciais. Em contraste, as mulheres usariam os dois lados para tudo. Essa noção não tem apoio nas evidências, mas escritores populares se apegam a isso para justificar preconceitos antigos, como o de que homens são melhores em matemática e as mulheres têm mais habilidade para relacionamentos.

*Você tem outros exemplos claros dessa manipulação?
Fine: Uma pesquisa que eu cito em meu livro, feita por psicólogos da Universidade de Cambridge, aponta que, quando um menino vê um celular, ele se preocupa com o aparelho, enquanto a menina repara na foto da tela. Acontece que sempre há a chance de o aparelho ser levemente movimentado diante dos meninos para reforçar o resultado esperado. Em outro caso, um estudo da Universidade de Londres com crianças desclassificou um brinquedo antes caracterizado como “masculino” porque as garotas testadas o adoraram. Outro estudo, desta vez nos Estados Unidos, apontou que as garotas passaram o dobro do tempo entretidas com brinquedos supostamente de meninos do que com femininos. Mas o dado foi omitido do resultado final. Posso garantir: nesse tipo de pesquisa, dados que não confirmem a tese original do pesquisador são ignorados.

*Centenas de estudos apontam essas diferenças. Estão errados?
Fine: De fato, esse tipo de pesquisa pipoca o tempo todo, mas todos têm sérios problemas de metodologia. Em primeiro lugar, costumam ser realizados com amostragens quase insignificantes — o resumo que a imprensa usa para escrever reportagens não costuma deixar isso claro, mas muitas são feitas com algo entre quatro e oito pessoas. É muito pouco.

*Mas as diferenças entre os cérebros existem, não?
Fine: Sem dúvida. Na média, homens têm cérebros maiores e contam com um pequeno grupo de células do hipotálamo ligeiramente maiores. Identificar essas características é fácil e atraente porque pode ser traduzido em imagens. Mas não estamos falando de um órgão estático. O cérebro se desenvolve e se adapta de acordo com o ambiente em que a pessoa está. Os circuitos de neurônios são, em grande parte, resultado do meio físico, social e cultural no qual vivemos. O fato é que trata-se de um órgão tremendamente complexo e ainda estamos muito longe de entendê-lo. Não sabemos qual o efeito real de uma amídala um pouco maior ou um córtex frontal direito ser mais ativo em homens, por exemplo.

*Se homens e mulheres vivessem em igualdade de tratamento, as diferenças de comportamento entre eles desapareceriam?
Fine: Não conhecemos uma única sociedade que tenha conseguido acabar totalmente com o sexismo, mas acredito que sim. Quer dizer, haveria tantos homens quanto mulheres engenheiros, escritores, matemáticos, bons motoristas, capazes de exercer a empatia, por exemplo. Por outro lado, quando o ambiente evidencia as diferenças de gênero, elas se tornam ainda mais fortes. É um efeito em cascata que garante que qualquer executiva americana de sucesso da atualidade seria uma dona de casa na década de 40.

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Declaração final Cúpula dos Povos na Rio+20


Declaração final Cúpula dos Povos na Rio+20 por Justiça Social e AmbientalEm defesa dos bens comuns, contra a mercantilização da vida
Movimentos sociais e populares, sindicatos, povos, organizações da sociedade civil e ambientalistas de todo o mundo presentes na Cúpula dos Povos na Rio+20 por Justiça Social e Ambiental, vivenciaram nos acampamentos, nas mobilizações massivas, nos debates, a construção das convergências e alternativas, conscientes de que somos sujeitos de uma outra relação entre humanos e humanas e entre a humanidade e a natureza, assumindo o desafio urgente de frear a nova fase de recomposição do capitalismo e de construir, através de nossas lutas, novos paradigmas de sociedade.
A Cúpula dos Povos é o momento simbólico de um novo ciclo na trajetória de lutas globais que produz novas convergências entre movimentos de mulheres, indígenas, negros, juventudes, agricultores/as familiares e camponeses, trabalhadore/as, povos e comunidades tradicionais, quilombolas, lutadores pelo direito a cidade, e religiões de todo o mundo. As assembléias, mobilizações e a grande Marcha dos Povos foram os momentos de expressão máxima destas convergências.
As instituições financeiras multilaterais, as coalizações a serviço do sistema financeiro, como o G8/G20, a captura corporativa da ONU e a maioria dos governos demonstraram irresponsabilidade com o futuro da humanidade e do planeta e promoveram os interesses das corporações na conferencia oficial. Em constraste a isso, a vitalidade e a força das mobilizações e dos debates na Cúpula dos Povos fortaleceram a nossa convicção de que só o povo organizado e mobilizado pode libertar o mundo do controle das corporações e do capital financeiro.
Há vinte anos o Fórum Global, também realizado no Aterro do Flamengo, denunciou os riscos que a humanidade e a natureza corriam com a privatização e o neoliberalismo. Hoje afirmamos que, além de confirmar nossa análise, ocorreram retrocessos significativos em relação aos direitos humanos já reconhecidos. A Rio+20 repete o falido roteiro de falsas soluções defendidas pelos mesmos atores que provocaram a crise global. À medida que essa crise se aprofunda, mais as corporações avançam contra os direitos dos povos, a democracia e a natureza, sequestrando os bens comuns da humanidade para salvar o sistema economico-financeiro.
As múltiplas vozes e forças que convergem em torno da Cúpula dos Povos denunciam a verdadeira causa estrutural da crise global: o sistema capitalista patriarcal, racista e homofobico.
As corporações transnacionais continuam cometendo seus crimes com a sistematica violação dos direitos dos povos e da natureza com total impunidade. Da mesma forma, avançam seus interesses através da militarização, da criminalização dos modos de vida dos povos e dos movimentos sociais promovendo a desterritorialização no campo e na cidade.
Da mesma forma denunciamos a divida ambiental histórica que afeta majoritariamente os povos oprimidos do mundo, e que deve ser assumida pelos países altamente industrializados, que ao fim e ao cabo, foram os que provocaram as múltiplas crises que vivemos hoje.
O capitalismo também leva à perda do controle social, democrático e comunitario sobre los recursos naturais e serviços estratégicos, que continuam sendo privatizados, convertendo direitos em mercadorias e limitando o acesso dos povos aos bens e serviços necessarios à sobrevivencia.
A dita “economia verde” é uma das expressões da atual fase financeira do capitalismo que também se utiliza de velhos e novos mecanismos, tais como o aprofundamento do endividamento publico-privado, o super-estímulo ao consumo, a apropriação e concentração das novas tecnologias, os mercados de carbono e biodiversidade, a grilagem e estrangeirização de terras e as parcerias público-privadas, entre outros.
As alternativas estão em nossos povos, nossa historia, nossos costumes, conhecimentos, práticas e sistemas produtivos, que devemos manter, revalorizar e ganhar escala como projeto contra-hegemonico e transformador.
A defesa dos espaços públicos nas cidades, com gestão democrática e participação popular, a economia cooperativa e solidaria, a soberania alimentar, um novo paradigma de produção, distribuição e consumo, a mudança da matriz energética,  são exemplos de alternativas reais frente ao atual sistema agro-urbano-industrial.
A defesa dos bens comuns passa pela garantia de uma série de direitos humanos e da natureza, pela solidariedade e respeito às cosmovisões e crenças dos diferentes povos, como, por exemplo, a defesa do “Bem Viver” como forma de existir em harmonia com a natureza, o que pressupõe uma transição justa a ser construída com os trabalhadores/as e povos.
Exigimos uma transição justa que supõe a ampliação do conceito de trabalho, o reconhecimento do trabalho das mulheres e um equilíbrio entre a produção e reprodução, para que esta não seja uma atribuição exclusiva das mulheres. Passa ainda pela liberdade de organização e o direito a contratação coletiva, assim como pelo estabelecimento de uma ampla rede de seguridade e proteção social, entendida como um direito humano, bem como de políticas públicas que garantam formas de trabalho decentes.
Afirmamos o feminismo como instrumento da construção da igualdade, a autonomia das mulheres sobre seus corpos e sexualidade e o direito a uma vida livre de violência. Da mesma forma reafirmamos a urgência da distribuição de riqueza e da renda, do combate ao racismo e ao etnocídio, da garantia do direito a terra e território, do direito à cidade, ao meio ambiente e à água, à educação, a cultura, a liberdade de expressão e democratização dos meios de comunicação.
O fortalecimento de diversas economias locais e dos direitos territoriais garantem a construção comunitária de economias mais vibrantes. Estas economias locais proporcionam meios de vida sustentáveis locais, a solidariedade comunitária, componentes vitais da resiliência dos ecossistemas. A diversidade da natureza e sua diversidade cultural associada é fundamento para um novo paradigma de sociedade.
Os povos querem determinar para que e para quem se destinam os bens comuns e energéticos, além de assumir o controle popular e democrático de sua produção. Um novo modelo enérgico está baseado em energias renováveis descentralizadas e que garanta energia para a população e não para as corporações.
A transformação social exige convergências de ações, articulações e agendas a partir das resistências e alternativas contra hegemônicas ao sistema capitalista que estão em curso em todos os cantos do planeta. Os processos sociais acumulados pelas organizações e movimentos sociais que convergiram na Cúpula dos Povos apontaram para os seguintes eixos de luta:
  • Contra a militarização dos Estados e territórios;
  • Contra a criminalização das organizações e movimentos sociais;
  • Contra a violência contra as mulheres;
  • Contra a violência as lesbicas, gays, bissexuais, transexuais e transgeneros;
  • Contra as grandes corporações;
  • Contra a imposição do pagamento de dívidas econômicas injustas e por auditorias populares das mesmas;
  • Pela garantia do direito dos povos à terra e território urbano e rural;
  • Pela consulta e consentimento livre, prévio e informado, baseado nos princípios da boa fé e do efeito vinculante, conforme a Convenção 169 da OIT;
  • Pela soberania alimentar e alimentos sadios, contra agrotóxicos e transgênicos;
  • Pela garantia e conquista de direitos;
  • Pela solidariedade aos povos e países, principalmente os ameaçados por golpes militares ou institucionais, como está ocorrendo agora no Paraguai;
  • Pela soberania dos povos no controle dos bens comuns, contra as tentativas de mercantilização;
  • Pela mudança da matriz e modelo energético vigente;
  • Pela democratização dos meios de comunicação;
  • Pelo reconhecimento da dívida histórica social e ecológica;
  • Pela construção do DIA MUNDIAL DE GREVE GERAL.
Voltemos aos nossos territórios, regiões e países animados para construirmos as convergências necessárias para seguirmos em luta, resistindo e avançando contra os sistema capitalista e suas velhas e renovadas formas de reprodução.
Em pé continuamos em luta!
Rio de Janeiro, 15 a 22 de junho de 2012.Cúpula dos Povos por Justiça Social e ambiental em defesa dos bens comuns, contra a mercantilização da vida.

domingo, 1 de julho de 2012

Pela primeira vez uma revista científica brasileira, a Ciência & Saúde Coletiva, dedicará um número inteiro para tratar do assunto. A edição temática, financiada em parte pelo Ministério da Saúde, será publicada em julho. Os artigos traduzem os resultados qualitativos da Pesquisa Nacional do Aborto, produzida por uma equipe de pesquisadores da Universidade de Brasília, que trouxe a público, em 2010, a informação de que uma em cada cinco brasileiras de até 40 anos já fez ao menos um aborto. Revelados aqui em primeira mão, os textos revelam a realidade sem hipocrisia: o que se passa nas clínicas clandestinas até o atendimento na rede pública de eventuais complicações.

Fonte: Carta Capital

terça-feira, 26 de junho de 2012

Posicionamento do Conselho Federal de Psicologia sobre o aborto

O Conselho Federal de Psicologia (CFP) vem a público manifestar sua posição em relação à descriminalização do aborto, tendo em vista publicação de matéria no dia 10 de março de 2012, do jornal Folha de São Paulo, intitulada “Grupo aprova liberação de aborto com aval de psicólogo” e a aprovação, pelo Supremo Tribunal Federal (STF), da opção pelo aborto no caso de fetos anencéfalos. Segundo a matéria, a comissão de juristas criada pelo Senado Federal para elaborar o novo Código Penal aprovou um anteprojeto que prevê, entre outros pontos, a ampliação dos casos em que o aborto é legal. Pela proposta, não é crime a interrupção da gravidez até a 12ª semana quando, a partir de um pedido da gestante, o "médico ou psicólogo constatar que a mulher não apresenta condições de arcar com a maternidade". Inicialmente, a ideia da comissão era propor que essa autorização fosse apenas dos médicos, mas acabou estendida aos psicólogos. Atualmente, o aborto no Brasil é crime previsto no artigo 128, incisos I e II do Código Penal Brasileiro. A lei data da década de 20 e autoriza a interrupção da gestação em apenas dois casos: risco de vida para a mãe e/ou estupro. A votação favorável por liberar o aborto de anencéfalos realizada pelo Supremo Tribunal Federal, em 12 de abril de 2012, por 8 votos a 2, vem a favor do direito das mulheres de interromper a gravidez no caso deste tipo de gestação. Um estudo da Organização Mundial da Saúde (OMS) e do Instituto Guttmacher, nos Estados Unidos, chamado "Aborto Induzido: Incidências e Tendências pelo Mundo de 1995 a 2008", revelou que as interrupções de gravidez sem assistência clínica – ou seja, de risco e clandestinas - aumentaram de 44 para 49 por cento e que 220 em cada cem mil mulheres acabam morrendo, principalmente no continente africano. O estudo foi publicado no periódico The Lancet. Segundo o estudo, em todo o mundo, os abortos inseguros foram a causa de 220 mortes por 100 mil procedimentos em 2008 – 35 vezes mais do que a taxa de abortos legais nos Estados Unidos – e de quase uma em cada sete do total de mortes maternas. As regiões que correm mais riscos de aborto inseguro são a América Central e do Sul, além da África Central e ocidental, onde 100% de todas as interrupções da gravidez foram inseridas nesta categoria. Anualmente, cerca de 8,5 milhões de mulheres em países em desenvolvimento sofrem complicações sérias decorrentes do aborto sem condições de segurança. O relatório também alertou sobre o uso crescente do medicamento chamado misoprostol, utilizado no tratamento de úlceras gástricas. Apesar de ser ilegal, seu uso tem aumentado em países onde há leis restritivas ao aborto. No Brasil, a OMS estima que 31% dos casos de gravidez terminam em abortamento (quase três em cada dez mulheres grávidas abortam). Já conforme estimativas do Ministério da Saúde, todos os anos ocorrem cerca de 1,4 milhão de abortamentos espontâneos e ou inseguros, com uma taxa de 3,7 abortos para 100 mulheres de 15 a 49 anos. Com base nestes dados, percebemos que a lei atual impede que estas mulheres tenham direito a sua cidadania e aos seus direitos humanos sexuais e reprodutivos, direitos estes estabelecidos por importantes Conferências Internacionais de Direitos Humanos que produziram Documentos dos quais o Brasil é signatário. Sabe-se que a lei que criminaliza o aborto não impede, ou sequer reduz a sua incidência, e não dá conta da complexidade da questão. O debate sobre a liberdade de optar por não seguir com a gestação é distante da realidade e necessidades das mulheres. O CFP se posiciona conforme os Tratados Internacionais assinados pelo Estado brasileiro, nos quais o governo se compromete a garantir o acesso das mulheres brasileiras aos direitos reprodutivos e aos direitos sexuais, referendando a autonomia destas frente aos seus corpos. O conselho também segue os encaminhamentos do VII Congresso Nacional de Psicologia (CNP), entre eles a discussão dos Projetos de Lei que regulamentam o aborto seguro e a garantia do diálogo com os movimentos que lutam pela legalização do aborto. Lembramos ainda a moção aprovada no VII CNP, de apoio à legalização do aborto: “Reconhecendo tanto a complexidade do tema, quanto os direitos sexuais e reprodutivos das mulheres e entendendo a situação de sofrimento decorrente da criminalização e da falta de acesso aos serviços de saúde, os/as delegado(as) do VII Congresso Nacional de Psicologia vêm manifestar seu apoio à legalização da prática do aborto no Brasil, independente de a gravidez ser decorrente de violência ou haver risco de morte para a mulher.” O CFP tem ainda como diretriz-base o Código de Ética Profissional do Psicólogo que determina, segundo os seus Princípios Fundamentais, que: "O psicólogo baseará o seu trabalho no respeito e na promoção da liberdade, da dignidade, da igualdade e da integridade do ser humano, apoiado nos valores que embasam a Declaração Universal dos Direitos Humanos." E ainda, de acordo com o Art. 2º – Ao psicólogo é vedado: 
 a) Praticar ou ser conivente com quaisquer atos que caracterizem negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade ou opressão;
 b) Induzir a convicções políticas, filosóficas, morais, ideológicas, religiosas, de orientação sexual ou a qualquer tipo de preconceito, quando do exercício de suas funções profissionais. O CFP luta pela promoção da saúde da mulher, tanto física quanto mental, e pelo reconhecimento e integração dos diversos momentos e vivências na subjetividade da mulher, entre eles a decisão de ter filhos. Defendemos, sobretudo, o acolhimento e escuta para as mulheres em situação de aborto!

domingo, 24 de junho de 2012

Albert Nobbs (Irlanda ,2011)


O filme é a história de uma mulher que toda a vida se fez passar por um homem para sobreviver na conservadora sociedade irlandesa. Trabalha como garçom em um hotel, é quase uma máquina de tão perfeito (pontual, eficiente, discreto). Até que é despertado para uma vida de sonhos, possibilidades e de amor.

O filme tem críticas boas e ruins, mas a atuação das duas atrizes que passam pela transformação de sexo vale a pena! é inquestionável! O filme tem várias premiações e 3 indicações ao Oscar.

sábado, 23 de junho de 2012

Marília Peixoto (1921 - 1961)


Impressionante sabe que o estudo da Matemática no Brasil era impossível para as mulheres, uma vez que essas não podiam adentrar nas Escolas Politécnicas. Mas, houve a abertura das escolas de filosofia para mulheres na década de 30 e algumas passaram a se dedicar ao estudo da matemática dentro das faculdades de filosofia. Foi nessa leva que se formaram grandes matemáticas como Marília Peixoto e Maria Mouzinho (que vamos falar em outro post).

Marília Peixoto era estudante de Engenharia em 1936, uma raridade na época, frequentava concomitantemente o curso de matemática na Faculdade Nacional de Filosofia. Fez estudos sobre Sistemas Dinâmicos e publicou alguns artigos importantes sobre equações diferenciais juntamente com o seu marido Maurício Peixoto (reconhecido matemático brasileiro). E foi a primeira mulher membra da Academia Brasileira de Ciências.

Atuou como professora de Cálculo e Mecânica na Escola Nacional de Engenharia e em cursos especiais no Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas. Publicou pela Escola de Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro um livro sobre Cálculo Vetorial.

A Matemática brasileira é reconhecida no exterior pelos estudos de Sistemas Dinâmicos, mas não ouvimos o nome de Marília em nenhuma referência, embora ela tenha contribuído grandemente neste segmento de pesquisa.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Maria Goeppert-Mayer





Ela ganhou o Prêmio Nobel de Física de 1963, por pesquisas sobre a estrutura dos átomos e o Modelo das camadas nucleares.   No início da carreira escreveu, junto com o seu marido, um livro que virou obrigatório nas universidades, sobre Mecânica Estatística.

Completou seu doutorado em 1930 (Born, Franck e Windaus, eram sua banca, ou seja 3 outros Nobels), casou-se com o seu professor e teve um casal de filhos.
 
Nasceu na Alemanha, e teve toda a sua formação lá, mas lecionou nos EUA, na John Hopkins University, na Universidade de Columbia, e outras, sempre como assistente ou voluntária, sem receber nada, pois o seu marido era o titular da cadeira.
Desenvolveu sua carreira independente quando foi convidada a ser uma das pesquisadoras do famigerado Projeto Manhattan, que culminou no desenvolvimento do arsenal atômico americano. Dizem que ela foi a pessoa mais importante na construção da tecnologia que gerou as Bombas H. Sem a sua participação no projeto, os alemães teriam construído a bomba antes dos americanos. A partir daí suas pesquisas passaram a ser financiadas e passou a ser professora titular na Universidade da Califórnia.

Com colegas da Universidade de Chicago - eles recebiam, ela não!
Ela recebeu seu primeiro salário como pesquisadora aos 53 anos!

Dá pra ler uma bibliografia bem completa dela aqui, e também tem um vídeo sobre sua participação no Projeto Manhattan.

terça-feira, 19 de junho de 2012

As mulheres e o conhecimento humano.


Gostaria de iniciar uma série de posts com o intuito de relembrar a contribuição das mulheres para a ciência e o conhecimento humano. Estou sempre vendo filmes de homens brancos que revolucionaram a tecnologia, criaram a internet, fizeram toda a modernidade que nós usufruímos agora. Será que isso é a realidade? Faz parte da luta pela igualdade ajudar a reescrever a nossa história, com nossas heroínas e nossas pensadoras, além de nos ajudar a ter novos referenciais... E informação nunca é demais, não é ?!

Hipátia de Alexandria
 Desde a antiguidade temos relatos de mulheres dedicadas às ciências naturais, à filosofia e à medicina. Na idade Média, apesar da cruel recusa de conhecimento às mulheres, muitas desenvolveram estratégias - em conventos e escolas muito restritas - para estudar e desenvolver suas habilidades intelectuais. 

                Mas foi mesmo no século XX que a maioria das universidades abriram espaço para as mulheres, e de forma muito tímida nas áreas de ciencia e tecnologia. Nos Estados Unidos, nos anos 1950 e 1960, nas ciências naturais a participação das mulheres era de aproximadamente 10%, oscilando entre 5% na física e 27% na biologia. Isso não significou reconhecimento, já que dos 851 Nobels que já foram concedidos (como exemplo), apenas 44 foram para mulheres, dos quais 15 Nobels da Paz e 12 de Literatura. Mas podemos observar esse mesmo padrão em qualquer Universidade brasileira, é só fazer a relação entre pesquisadores homens e mulheres, principalmente nas áreas de Ciências Naturais e Tecnologia.

Alguns argumentos, fruto de uma “ciência” discriminatória, são utilizados para justificar essa discrepância, e naturalizar o não-reconhecimento do trabalho da mulher na produção acadêmica. 


Basta ir nas livrarias e encontrar esse argumentos em Best-sellers baseados em “pesquisas”, algumas sérias e mal interpretadas, outras sem nenhum rigor científico. O que essas pesquisas tentam naturalizar é um fenômeno socialmente construído, que tem como pano de fundo ideológico o patriarcado e o machismo.

Qual é o real motivo de as mulheres não estarem inseridas no mundo científico?

Podemos citar alguns motivos para começar....

- Uma socialização voltada para o espaço privado. Meninas devem aprender as tarefas de casa.


- O “aconselhamento” que a família e a escola dão aos meninos e meninas sobre suas escolhas profissionais.



- A DIVISÃO SEXUAL DO TRABALHO.
- O peso do cuidado humano que recai sobre as mulheres e muitas vezes diminui o tempo de trabalho, estudo ou dedicação intelectual.

- A falta de referências em mulheres cientistas que os livros didáticos apresentam.



De cara dá pra ver que a explicação de porque não estamos devidamente representadas no campo da ciência não é tão simples assim... Existe uma série de fatores que impedem que as mulheres alcancem os mesmos patamares de reconhecimento científico, no entanto as personalidades que vamos apresentar aqui são a prova de que o conhecimento deve muito às mulheres !

Curie (outra Nobel de física) disse: "A vida não é fácil para nenhuma de nós. Mas que importa?"  Embora não reconhecidas, as mulheres produzem conhecimento todos os dias, apaixonadas por suas pesquisas. Mas me pergunto o que mais essas mulheres poderiam fazer se pudessem explorar toda a sua capacidade. O quanto mais poderíamos nos beneficiar das suas genialidades?

                Não podemos esquecer também que o conhecimento acumulado da humanidade também foi feito por mulheres não-acadêmicas, que no dia a dia do cuidado com a existência humana desenvolveram técnicas e saberes, que sustentaram a vida e deram ensejo a tecnologias e pesquisas. Essas mulheres são mais difíceis de catalogar, porque são nossas avós, mães, tias, que de forma tradicional e oral transmitem um conhecimento fundamental para a existência.


Esse debate dá muito pano pra manga... e espero que em cada post possamos discutir novos questionamentos...