terça-feira, 5 de julho de 2011

Charque, xoxota, putão, cachorra, vadia. Quem se ofende?

* Gisele Dantas
A Marcha das Vadias suscitou um debate que vira e volta está presente nas rodas femininas, e nas rodas feministas evoca em muitas o ardor da defesa da imagem da mulher e em outras um certo questionamento se isso deve mesmo ofender ou não. Quem não se lembra da polêmica aqui mesmo no Blog sobre o nosso bloco de carnaval Charque Independência? Peço licença para as companheiras para emitir uma opinião.
É sabido de todas (muitas vezes por experiência própria) que ao longo da dominação machista de nossas vidas fomos usadas como objeto, tanto sexual, quanto utilitário do lar, e para nos manter como “máquinas de lavar com vagina”, a linguagem foi amplamente utilizada para nos colocar em nosso lugar, nos diminuir, nos coisificar. Não só os jargões de bordel, mas a linguagem rotineira, do dia-a-dia, ora esquece a nossa existência, ora nos lembra de nosso papel.
 Um bom exemplo disso é o conceito de Homem no Aurelião (dicionário), Homem é qualquer indivíduo animal que apresenta maior complexidade evolutiva, o ser humano. E acrescenta exemplos: homem de bem, homem de Deus, homem da lei, homem do povo. Mulher tem uma definição bastante diferente: O ser humano do sexo feminino, capaz de conceber e parir outros seres humanos (ou seja, mulheres inférteis não são mulheres), e os exemplos são fantásticos: mulher à-toa, mulher comédia, mulher da rótula, mulher da rua, mulher de César, mulher da vida, etc... e com uma observação após cada uma dessas, “meretriz”. Ou seja, nada sobre a nossa escala evolutiva, apenas a alusão à nossa capacidade de parir e o mau uso da nossa sexualidade.
A linguagem cumpre seu papel todos os dias de nos diminuir, mas ultimamente a linguagem, essa mesma que nos menospreza está servindo pra nos afirmar. O funk carioca já faz a cabeça da galera da favela à muito tempo, mas ganhou a mídia com uma versão light, mas ainda sim muito misógina, onde as mulheres eram cachorras e popozudas e etc. E como sempre, não aparecia na mídia uma parte do funk composta e cantada por mulheres, e quando apareceu, nossa! foi um escândalo. Me lembro de muitas feministas dizendo de que Tati quebra-barraco era uma mulher que tinha sido tomada pela sua própria opressão ao se auto denegrir, se chamando de cachorra.
Não me parece que auto punição seja o caso, pra mim parece mais uma afirmação do gênero “sou cachorra se eu quiser, eu dô pra quem quiser, e a porra da buceta é minha”, como diria Deise Tigrona. A utilização da mesma linguagem que diminui pra afirmar, afirmar a capacidade de se livrar de um marido agressor, afirmar a sua sexualidade, é um instrumento libertador. Quando nós mulheres utilizamos palavras que serviram para nos denegrir em nosso favor desconstruímos o imaginário que se faz em cima dessa linguagem e tiramos mais um trunfo da mão de misóginos. Se é pra falar de xoxota, que falemos nós mesmas das nossas!

Toda essa reclamação pudica sobre o termo Marcha das Vadias ou Charque Independência é que me oprime. Vadia é um conceito que utilizam pra inibir meu comportamento, eu não posso ser vadia, não posso gozar, nem me masturbar, porque se eu sair do meu papel as consequências virão. Mas não somos oprimidas ou violentadas por sermos vadias, putões, cachorras, nem pelas nossas roupas ou comportamento e sim pelo simples fato de sermos mulheres.  
         
Não é o termo que define a nossa opressão, é quem utiliza o termo e porque utiliza. Se fosse assim eu não iria querer ser chamada de mulher, porque ser mulher foi por muito tempo, e ainda é a representação de um ser humano de segunda categoria. Mas pra mim, ser mulher é outra coisa, e eu preciso afirmar todos os dias que eu sou mulher, só que do meu jeito.
*Gisele Dantas é militante da Marcha Mundial das Mulheres

4 comentários:

Mariah Aleixo disse...

Gi, concordo contigo em gênero, número e grau! Essa discussão é semelhante à que se faz no movimento
LGBT, em que os militantes começam a se autointitular "bicha". "bichinha", "bichona" utilizando a linguagem, outrora opressora, a seu favor!

Gisele disse...

Ou mesmo no movimento negro, onde as pessoas se chamam de preto, pretinha, negão... Que antes era usados como desmerecimento.

Tatiana Oliveira disse...

Meninas,

Tô com vcs e não abro! Essa disputa da linguagem/simbólico tá na ordem do dia e está repleta de significados bastante concretos em nossas vidas. Pra dar um exemplo simplório: até hj a Dilma não é chamada de presidenta pela grande mídia.

Além dos olhos . disse...

A opressão também se torna liberdade quando nos apropriamos de seus termos opressores e jogamos de volta nos opressores.

Já viram como se incomodam quando falamos da Marcha das Vadias?